Escola não é Lugar de Educação (?)
Este ano, sem dúvida, nos trouxe
muitas reflexões sobre o nosso cenário político. Para além da "dança das
cadeiras" alguns movimentos me chamaram muito a atenção: lei da mordaça e
escola sem partido, se junta a estas uma outra: a não inclusão das discussões
de gênero do currículo das séries iniciais da Educação Básica. Estas trazem no
seu bojo uma mesma ideia: escola não é
lugar para educação!
Em sintonia contrária a estes
movimentos, temos nossa LDB (Lei de Diretrizes e Bases) que em seu artigo
segundo prega: "A educação, dever
da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de
solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando,
seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho."
e segue esmiuçando estes aspectos. Fica claro para nós que, muito mais do que a
transmissão de processos, ou procedimentos, cabe à escola, neste caso o estado,
propiciar esse amplo espectro de "habilidades sociais" tão caros à
sociedade atual. Em algum momento do passado parece que houve a desvinculação
de conhecimentos, habilidades, desenvolvimento humano e social. As ditas
ciências duras com seu positivismo implacável "nada tinham a ver" e "em
nada poderiam contribuir" com a formação de um "ser humano
melhor" ou minimamente apto ao convívio social - alguns profissionais de
Educação ainda acham isso. Mesmo as ciências humanas, numa tentativa de se
legitimarem enquanto "Ciência", foram atrás de métodos estatísticos
que as afastassem do "ser humano" e toda sua carência, necessidade
afetiva, vaidades, inveja e tantos outros sentimentos que nos habitam. Ao
deixar tudo isso "de fora" das "ciências", também deixamos,
por consequência, tudo isso fora da sala de aula da Educação Básica (um claro
descumprimento da nossa LDB) - ao menos no currículo, visto que se há gente,
esses sentimentos todos se farão presentes, com menor ou maior grau de repressão.
Não cumprir a lei é apenas um
aspecto dessa história toda (há centenas de casos inócuos de atividades e
práticas de sala de aula que ninguém sabe como foram parar lá, tão pouco sabem,
mesmo os professores, para o que servem - além da prova, é claro), muito mais
grave do que isso é o tipo de profissional que as universidades têm cuspido
para o mundo. Quer dizer que estes aspectos e pensamento restrito não se
restringem à Educação Básica? Não, senhoras e senhores, muito pelo contrário.
Na universidade a universalidade e a humanidade ficou de fora.
Recentemente fomos bombardeados
por casos icônicos e igualmente trágicos: um médico, com todo prestigio que
nossa sociedade lhe impõe, com muitos e muitos anos de escolarização (Ensino
Fundamental, Ensino Médio, Graduação e Residência - por aí ao menos uns 18 anos
de estudo) é capaz de ridicularizar o modo de fala de um de seus pacientes. Mais
do que isso, de expor de forma gratuita e burra
todo o seu preconceito em uma rede social. Não bastasse isso, sua postagem vem
acompanhada de inúmeros comentários tão preconceituosos quando a postagem. Outro
caso, ainda mais recente, é do Professor Universitário que, também em uma rede
social ironiza, e em certa medida festeja, a perda da visão de uma manifestante
em um protesto político. Este último, não apenas graduado, possui Licenciatura
- sim, aqueles cursos que visam à formação de professores -, é Mestre pela USP
(a mais renomada universidade do país), e possui dois doutorados: um em
Matemática pela Universidade da Califórnia e outro em Filosofia pela UNICAMP.
Como é possível pessoas com o
mais alto grau de instrução - sim o mais alto e restrito, em 2014 apenas
0,0076% da população possuía o título de Doutor - tomarem o outro, a população,
a sociedade de forma tão egoísta e simplista? Certamente os personagens
elencados aqui passaram pelas mais difíceis provas de "conteúdo
específico", os mais diversos testes, eles são, de alguma forma,
vencedores das barreiras que a educação nos impõe. Sim, por muitas vezes a
educação atua como crivo para distinguir aqueles que vão ou não prosseguir nos
estudos nas profissões formais. Não raro conhecemos pessoas que de tanto
reprovar em alguma matéria da educação básica acabaram por desistir de
prosseguir os estudos (especialmente em décadas anteriores). Ainda sim, são
incapazes de perceber o outro enquanto troca, enquanto possibilidade de
aprendizagem.
Enquanto acreditarmos que a mera
transmissão de procedimentos tem o potencial de "formar pessoas" e
devem assim ocupar boa parte dos currículos escolares estaremos, enquanto
sociedade, fadados ao fracasso!
Antes de sermos profissionais,
somos gente!
Muito coerente en todas as nuances do texto. Em uma das últimas aulas que conduzi na Licenciatura em Matemática, refletia junto com os alunos sobre nossa formação e os impactos dessa na educação básica e na sociedade. Nós, educadores, somos seres diferentes... Devemos ser bons exemplos para os demais (potenciais) profissionais em formação.
ResponderExcluirGrande e saudoso abraço.
Carlos Eduardo de Oliveira
Muito coerente en todas as nuances do texto. Em uma das últimas aulas que conduzi na Licenciatura em Matemática, refletia junto com os alunos sobre nossa formação e os impactos dessa na educação básica e na sociedade. Nós, educadores, somos seres diferentes... Devemos ser bons exemplos para os demais (potenciais) profissionais em formação.
ResponderExcluirGrande e saudoso abraço.
Carlos Eduardo de Oliveira